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Paz renovadora

Martha Medeiros

Somos incentivados a viver a 500 km/h num trajeto cheio de curvas definitivas à beira de um penhasco

Tempos atrás, li uma reportagem interessante com o escritor americano Michael Cunningham, autor de As Horas, em que ele comentava que todos nós sentimos uma vertigem insana em busca de realizações novas, e que deveríamos considerar as benesses da estabilidade, que pode ser tão compensadora quanto a novidade e bem menos cansativa no plano emocional. Segundo ele, não há vida irrelevante e dias menores, tudo o que nos acontece é importante, inclusive o que não nos acontece. Eu li esta matéria faz muito tempo e não lembro bem as palavras que foram usadas, creio que acabei contribuindo com minhas próprias palavras para compor esse parágrafo, mas Mr. Cunningham não há de reclamar, pois além de eu ter mantido o sentido de suas ideias, ele não lê português.

O que interessa é que isso é verdade: nós, que éramos o que líamos, o que comíamos e o que vestíamos, hoje somos o que fazemos, e entenda-se por fazer, fazer coisas grandes, que apareçam e sejam comentadas. É preciso correr riscos, disputar um concurso, publicar uma obra, aparecer na tevê, provocar um escândalo, viver uma aventura, inventar um modismo, descobrir uma fórmula revolucionaria para... não importa, desde que seja revolucionaria. Somo incentivados a viver a 500km/h, num trajeto cheio de curvas à beira de um penhasco. O que Michael Cunningham quis dizer é que tudo isso é muito emocionante, mas que preparar uma boa panqueca de banana também é um acontecimento.

A vida nos empurra pra frente de modo tão convicto que chego a sentir suas duas mãos espalmadas nas minhas costas. Ela exige que aprendamos inglês, que façamos exercícios, que experimentemos emoções novas, que nos atualizemos, que nos aprimoremos, tudo para lá adiante ganharmos o troféu dos estressados. Não a palco que chegue para tanta atuação, mas há abundância de sofás e redes para quantos se dispuserem a parar, sentar e reavaliar: aonde queremos chegar, afinal?

Talvez seja hora de refletir e buscar uma tranquilidade igualmente motivadora. Devemos aprender a, de vez em quando, dizer “alto lá” para essas mãos invisíveis que nos empurram pelas costas e procurar ser feliz com uma vida estável, com os dias correndo mansamente, previsíveis, serenos. Quem sabe não é isso que nos falta. Emoções controladas. Expectativas modestas. Panquecas de banana.


Domingo, 9 de janeiro de 2005.



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